quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Os mínimos decibéis

Era uma maravilha de pessoa. Sempre lhe disseram que era especial. E ela sabia disso. Mas ela sabia o porquê. As pessoas não. A verdade é que tinha uma audição fantástica. Desde pequena. Ouvia o menor sussuro. Com o passar dos anos, desenvolveu mais ainda essa incrível habilidade. Começou a desprezar os outros sentidos. Não dava mais valor ao olfato, ao tato, muito menos à visão. Dizia que as imagens enganavam; uma palavra uma vez dita, não mudava. Não tinha ângulo diferente que desse jeito. Cresceu, estudou, brincou, foi feliz. Até que um dia se apaixonou e casou.

O marido, depois de alguns anos, já não conseguia esconder que achava estranho a mulher não notar as surpresinhas diárias que ele lhe fazia. Ela só parecia estar atenta quando ele lhe falava ao pé do ouvido. Precisava ouvir o marido dizer que a amava. E assim foram levando. Vieram os filhos, e ela não os via crescer. O tempo foi passando, as crianças cresceram, o marido e os amigos já não aguentavam mais ter que falar o tempo todo. E ela ia aguçando cada vez mais a audição em detrimento dos outros sentidos. Enxergava, mas nada via. Cheirava, mas não distinguia um odor do outro, era incapaz de perceber a textura de uma pele, um tecido, um bicho. Gosto então, não sabia mais o que era. Uma mulher que mais parecia um ouvido ambulante.

Até que um dia, num acidente doméstico (nunca explicado) ficou surda. Seu mundo acabou a partir dali. O mundo não tinha mais graça, a vida perdera todo o sentido. Não adiantaram os monólogos intermináveis do marido ao pé da cama, nem a cantoria espalhafatosa dos filhos. Uma tarde, na mesma hora em que se sentava todos os dias pra ouvir seu cd favorito, tomou duas caixas de barbitúricos, sentou na mesma poltrona em frente ao aparelho de som, fechou os olhos e esperou a música chegar para ouvi-la eternamente.

Um comentário:

Belle disse...

Ela era o Grenouille da audição...