domingo, 27 de maio de 2007

Da inutilidade do *

Essa semana reli uma entrevista do Paulo César Pereio, que ele concedeu à revista Playboy, acho que no ano passado. Na edição seguinte, na seção destinada às cartas do leitor, um destes reclamava da infinidade de * suprimindo o final de determinadas palavras; isso para o citado leitor era extremamente desnecessário. Para mim, além de desnecessário, é hipócrita, falso. A revista é destinada a um público adulto. Tudo bem, sabemos que muitos adolescentes lêem a revista, mas o fato é que não é pra esse público que a revista é cuidadosamente pensada e feita. Muitas mulheres lêem a revista, gostam das matérias, das entrevistas e (por quê não?) das belas moças que posam para a revista. Nem por isso eles convidam o Gianecchinni pra sair na nu. Não é o público deles.

Certo, o *. Então por que colocar * no fim de merda? merd*? Credo! A justificativa da publicação: "Merd* é palavrão, chupar e pau não é." Engraçado que no dicionário merda e pau, antes do significado, vêm com a explicação (Chulo). A diferença é que pau vem lá na oitava definição. Merda vem na primeira.

Não dá, sinceramente pra entender. Entender nem aceitar.
Quando convidaram o cara pra entrevista sabiam quem ele era, lógico. Conheciam sua língua afiada, sabiam que ele não tem "papas na língua." Faz parte da personalidade, do jeito dele, esse vocabulário. Não havia necessidade de tanto *. Ao contrário, os "palavrões" na entrevista dele são mais que necessários.

Ah! mas é uma questão de respeito aos leitores. "Chupar meu pau" não afronta, não é desrespeitoso. Agora, merda.... Sério?! Inclusive nas próximas edições vão colocar uma tarja preta na perseguida das "modelos". Porque mostrar pode, agora escrever? Jamais. Olha o nível!

A Folha, publicação respeitada no país todo, não hesitou em colocar no site:
"'Aquele programa de merda que as quatro fazem...', manda ao ar, enquanto tenta lembrar o nome do programa. 'Quatro mulheres chatas...', tenta ganhar tempo ainda com a sua falta de jeito para o padrão 'talk show'."
E ainda:
"Pereio não é cult e celebrado por acaso. São peças a perder a conta, como diz, e 60 filmes. O seu 'porra' é um clássico de final de frase nos diálogos. Na sua comunidade no Orkut, os admiradores também falam assim. A cada final de período, tacam lá a velha exclamação, 'porra!'."
É, esse "compromisso" com os leitores e com a inteligência das pessoas me assusta.
Digam-me, quem é a criatura alfabetizada, nascida ou criada nesse país, que ao ler um negócio tipo bucet* não saiba o que é? É natural, a pessoa já lê BUCETA.

Mas, tudo bem. Eles não publicam, a gente lê o palavrão completo do mesmo jeito.
E qualquer coisa, em português mesmo, tem uma boa resposta pra isso aí:
Vão pra puta que pariu! (Eu não disse quem!)

Porque pode parir qualquer coisa, menos o palavrão.
(E nem adianta chamar meu blog de "qualquer coisa".)

quarta-feira, 23 de maio de 2007

O superego de Beatrix Kiddo

Havia pelo menos cinqüenta pessoas na fila. Pensão desgraçada que eu só podia receber ali, naquele banco destinado ao pagamento de aposentados e pensionistas. Maldita procuração que me autorizava a sacar um dinheiro que nem meu era. Timidez estúpida que me impediu de negar um favor que eu nunca teria a intenção de fazer.
"Unm? Claro, minha sogra. A senhora já está cansada. Não precisa mais passar por isso. Pode deixar."
E assim foi. Ela viaja, vai pro bingo, toma cervejinha no bar, adora visitar as amigas que moram longe. Às vezes, até dorme fora, vejam só!
Eu? Trabalho pra burro, tenho um dia mais cacete que o outro, cuido de casa e de menino. E todo dia 15 compareço na sucursal do inferno, aquela agência.
No banco é onde a minha "bondade" mostra seu extremo. Eu aguento e aguento calada. Nunca consigo dizer um não, negar um pedido, ou simplesmente dizer o que realmente sinto. Uma trouxa. Já perdi as contas de quantas vezes me passaram a perna, me enganaram. Passam meu lugar, sentam na minha cadeira, bagunçam minha mesa. Fila? Sempre sou a última. Minha cara de cachorro abandonado nunca fica ameaçadora.
"Moça, por favor, meu filho tá em casa, sozinho. Posso passar na sua frente?"
"Ahn?! calro, tudo bem". E o meu filho acaba ficando sozinho.
" A senhora se incomoda d'eu ser atendido logo? É que o Curintcha vai jogar, sabe?" Não, não sei. Mas deixo. E eu perco o último capítulo da novela.

Esse mês resolvi pôr um fim nessa palhaçada. De onde tirei coragem, ainda não descobri. Mas resolvi. Mentalizei uma personalidade forte, escrevi 2.353 vezes: "Eu não sou boa.", fiz simpatia. Ninguém me engana dessa vez. Ensaiei na frente do espelho, fiz cara de malvada e tentei falar alto - quando não havia ninguém em casa e com o aparelho de som ligado, claro.

Enfim, chegou o dia 15.

Dirigi-me ao banco e lá estavam as cinqüenta pessoas na fila. Fiquei no meu lugar, aguardando minha vez. Nada de furar. estava decidida a ser firme e não mal-educada. Franzi a testa, adotei uma postura ereta (sou um pouco curvada, naturalmente), fechei a cara e a boca (meus dentes são levemente inclinados pra frente, daí um certo esforço para os lábios ficarem juntos) para reforçar o aspecto de mau.
Acontece que todo esse esforço foi me deixando tesa. Quanto mais me aproximava do guichê, mais sentia meu corpo petrificado. Acredito que já estava há muito tempo de pé, pois olhei para trás e vi que a fila agora já estava com o dobro do tamanho de quando eu entrei. Minha respiração saía difícil por causa da postura. Minha cabeça doía.
Mas fi resistindo, faltavam apenas três pessoas; a respiração já não saía, o rosto travado, a boca não abria de jeito nenhum. Meus olhos estavam esbugalhados, fixos, de tanto que eu evitei o olhar dos outros. Não conseguia me mexer, as pernas não obedeciam mais. Fiquei tonta.
A mulher em pé atrás de mim percebeu e me pegou pelo braço.
"A senhora está passando bem? A senhora... Meu Deus, a mulher tá passando meu! Chega! Alguém acode. Chegue, vamos sentar ali.
"Minha senhora, que você tá sentindo? Diga alguma coisa, pelamordedeus."
Mas eu não dizia nada. A boca travada.
Começou o alvoroço. Levaram-me pra sentar lá por dentro da agência, chamaram até um médico.
" Está tudo bem. Ela só está um pouco catatônica."
O rebuliço havia cessado mas alguns curiosos insistiam em dar mais uma olhadinha na atração. Um deles falou: "Coitada, uma mulher doente desse jeito. Devia assinar uma procuração e mandar alguém pegar o dinheiro no lugar dela."
"Anh?!" soltei um risinho de desprezo. Desprezo por mim mesma.
Resignei-me, voltei ao fim da fila e aguardei pacientemente meu atendimento.
"Coitada, uma mulher doente desse jeito. Devia assinar uma procuração e mandar alguém pegar o dinheiro no lugar dela."

Trouxa, é só isso que eu consigo ser.

terça-feira, 22 de maio de 2007

074

Aproximadamente sete horas da manhã.
No mundo ideal, nenhuma criatura deveria estar acordada àquela hora. Mas eu estou, quase todos os dias. E naquele lugar.

Estranhos se apertam, se acotovelam, não trocam um cumprimento sequer. E não se pode ser muito educado lá dentro. Às vezes, muita educação define como será o nosso amanhã. Olham-se como se quisessem matar uns aos outros. E trucidam-se em pensamento. Quando consigo olhar um estranho íntimo daqueles sem que ele perceba, sinto-me embaraçada. Apesar do nosso convívio cotidiano, não me sinto à vontade para estender os laços. Só fico pensando quando me verei livre dele, e acredito que ao me olhar ele pense a mesma coisa. Quanto tempo ainda falta para nos suportamos ali...

O calor é insuportável. O humano e o ambiente. Cheiros os mais variados mesclam-se e fica quase impossível distingui-los. Não sei quem não tomou banho no dia anterior, quem não escovou os dentes ou quem está usando o desodorante errado. Mas não cheira nada bem aquele lugar. Mesmo se eu derramasse litros de perfume em mim todas as manhãs, ainda acharia aquilo insuportável. O problema é mesmo o lugar.

Queria saber que erro cometi para pagar dessa maneira. Pena desgraçada. Tento me concentrar. Fecho os olhos, viajo no tempo e chego à época da minha infância, quando tudo era bom e a dor de uma palmada logo passava, para dar lugar à próxima. Mas, hoje? Todo dia, sempre a mesma coisa. E não passa nunca. Olho para os lados e vejo outros na mesma situação que eu e meus companheiros. Quando chegar a sua hora, pra onde será que irão? Em que pensam eles?
Talvez no mesmo que eu. Na hora do fim de tudo aquilo, de todo aquele aperto e violência.


Aí é que entra a pior parte. Depois de todo esse martírio dentro do coletivo, chega a hora de descer e dirigir-se correndo ao trabalho para não perder a hora de bater o ponto. Miseráveis!
Começa o segundo round.

quinta-feira, 17 de maio de 2007

Prólogo da criação

Não é o primeiro blog que eu faço. Comecei outro, há um tempo atrás. Não deu certo. Um imperativo fez com que eu o deixasse de lado: a preguiça. Nem me dei ao trabalho de procurá-lo antes de parir esse, esqueci senha, login e também ia dar um trabalho danado. Fiquei com preguiça. De novo.

Mas esse é diferente. Herculeamente encorajada pela Belle, dei continuidade ao propósito de compartilhar minha verborragia desenfreada e descontrolada. Provavelmente não estarão aqui belos textos bem escritos, histórinhas confessionais românticas ou tecituras super criativas e engraçadas. Não sou boa escritora, criativa ou engraçada; não sei ser e nem tento.

O mais certo é que aqui seja um "lugar" pra compartilhar - com quer se der o trabalho de ler- disparates. Desses que acontecem com todo mundo, que qualquer um faz, diz ou deseja que aconteça. E como quase tudo que acontece nessa nossa vida começa ou termina num disparate, quase tudo será bem-vindo. Mas não é só isso. Nem tudo isso. Esse blogescroque é só o começo.

Enjoy us!