terça-feira, 22 de maio de 2007

074

Aproximadamente sete horas da manhã.
No mundo ideal, nenhuma criatura deveria estar acordada àquela hora. Mas eu estou, quase todos os dias. E naquele lugar.

Estranhos se apertam, se acotovelam, não trocam um cumprimento sequer. E não se pode ser muito educado lá dentro. Às vezes, muita educação define como será o nosso amanhã. Olham-se como se quisessem matar uns aos outros. E trucidam-se em pensamento. Quando consigo olhar um estranho íntimo daqueles sem que ele perceba, sinto-me embaraçada. Apesar do nosso convívio cotidiano, não me sinto à vontade para estender os laços. Só fico pensando quando me verei livre dele, e acredito que ao me olhar ele pense a mesma coisa. Quanto tempo ainda falta para nos suportamos ali...

O calor é insuportável. O humano e o ambiente. Cheiros os mais variados mesclam-se e fica quase impossível distingui-los. Não sei quem não tomou banho no dia anterior, quem não escovou os dentes ou quem está usando o desodorante errado. Mas não cheira nada bem aquele lugar. Mesmo se eu derramasse litros de perfume em mim todas as manhãs, ainda acharia aquilo insuportável. O problema é mesmo o lugar.

Queria saber que erro cometi para pagar dessa maneira. Pena desgraçada. Tento me concentrar. Fecho os olhos, viajo no tempo e chego à época da minha infância, quando tudo era bom e a dor de uma palmada logo passava, para dar lugar à próxima. Mas, hoje? Todo dia, sempre a mesma coisa. E não passa nunca. Olho para os lados e vejo outros na mesma situação que eu e meus companheiros. Quando chegar a sua hora, pra onde será que irão? Em que pensam eles?
Talvez no mesmo que eu. Na hora do fim de tudo aquilo, de todo aquele aperto e violência.


Aí é que entra a pior parte. Depois de todo esse martírio dentro do coletivo, chega a hora de descer e dirigir-se correndo ao trabalho para não perder a hora de bater o ponto. Miseráveis!
Começa o segundo round.

Um comentário:

Belle disse...

Cambão lotado de manhã cedo é uma prévia dos infernos...