Havia pelo menos cinqüenta pessoas na fila. Pensão desgraçada que eu só podia receber ali, naquele banco destinado ao pagamento de aposentados e pensionistas. Maldita procuração que me autorizava a sacar um dinheiro que nem meu era. Timidez estúpida que me impediu de negar um favor que eu nunca teria a intenção de fazer.
"Unm? Claro, minha sogra. A senhora já está cansada. Não precisa mais passar por isso. Pode deixar."
E assim foi. Ela viaja, vai pro bingo, toma cervejinha no bar, adora visitar as amigas que moram longe. Às vezes, até dorme fora, vejam só!
Eu? Trabalho pra burro, tenho um dia mais cacete que o outro, cuido de casa e de menino. E todo dia 15 compareço na sucursal do inferno, aquela agência.
No banco é onde a minha "bondade" mostra seu extremo. Eu aguento e aguento calada. Nunca consigo dizer um não, negar um pedido, ou simplesmente dizer o que realmente sinto. Uma trouxa. Já perdi as contas de quantas vezes me passaram a perna, me enganaram. Passam meu lugar, sentam na minha cadeira, bagunçam minha mesa. Fila? Sempre sou a última. Minha cara de cachorro abandonado nunca fica ameaçadora.
"Moça, por favor, meu filho tá em casa, sozinho. Posso passar na sua frente?"
"Ahn?! calro, tudo bem". E o meu filho acaba ficando sozinho.
" A senhora se incomoda d'eu ser atendido logo? É que o Curintcha vai jogar, sabe?" Não, não sei. Mas deixo. E eu perco o último capítulo da novela.
Esse mês resolvi pôr um fim nessa palhaçada. De onde tirei coragem, ainda não descobri. Mas resolvi. Mentalizei uma personalidade forte, escrevi 2.353 vezes: "Eu não sou boa.", fiz simpatia. Ninguém me engana dessa vez. Ensaiei na frente do espelho, fiz cara de malvada e tentei falar alto - quando não havia ninguém em casa e com o aparelho de som ligado, claro.
Enfim, chegou o dia 15.
Dirigi-me ao banco e lá estavam as cinqüenta pessoas na fila. Fiquei no meu lugar, aguardando minha vez. Nada de furar. estava decidida a ser firme e não mal-educada. Franzi a testa, adotei uma postura ereta (sou um pouco curvada, naturalmente), fechei a cara e a boca (meus dentes são levemente inclinados pra frente, daí um certo esforço para os lábios ficarem juntos) para reforçar o aspecto de mau.
Acontece que todo esse esforço foi me deixando tesa. Quanto mais me aproximava do guichê, mais sentia meu corpo petrificado. Acredito que já estava há muito tempo de pé, pois olhei para trás e vi que a fila agora já estava com o dobro do tamanho de quando eu entrei. Minha respiração saía difícil por causa da postura. Minha cabeça doía.
Mas fi resistindo, faltavam apenas três pessoas; a respiração já não saía, o rosto travado, a boca não abria de jeito nenhum. Meus olhos estavam esbugalhados, fixos, de tanto que eu evitei o olhar dos outros. Não conseguia me mexer, as pernas não obedeciam mais. Fiquei tonta.
A mulher em pé atrás de mim percebeu e me pegou pelo braço.
"A senhora está passando bem? A senhora... Meu Deus, a mulher tá passando meu! Chega! Alguém acode. Chegue, vamos sentar ali.
"Minha senhora, que você tá sentindo? Diga alguma coisa, pelamordedeus."
Mas eu não dizia nada. A boca travada.
Começou o alvoroço. Levaram-me pra sentar lá por dentro da agência, chamaram até um médico.
" Está tudo bem. Ela só está um pouco catatônica."
O rebuliço havia cessado mas alguns curiosos insistiam em dar mais uma olhadinha na atração. Um deles falou: "Coitada, uma mulher doente desse jeito. Devia assinar uma procuração e mandar alguém pegar o dinheiro no lugar dela."
"Anh?!" soltei um risinho de desprezo. Desprezo por mim mesma.
Resignei-me, voltei ao fim da fila e aguardei pacientemente meu atendimento.
"Coitada, uma mulher doente desse jeito. Devia assinar uma procuração e mandar alguém pegar o dinheiro no lugar dela."
Trouxa, é só isso que eu consigo ser.
quarta-feira, 23 de maio de 2007
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Um comentário:
como diria meu digníssimo, o bonzinho só se fode... por isso eu sou má, hehehe
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