domingo, 29 de julho de 2007

Una noche*

O jantar era uma saco, ela não conhecia ninguém além do anfitrião e os pés doíam apertados naquele sapatinho emprestado. A cabeça estava longe, mais precisamente, no barzinho pé de chinelo do final da rua, onde os amigos tinham ficado. Sorte deles. E como se não bastasse, o que ela mais temia estava prestes a acontecer: desconhecidos se aproximavam. Iriam conversar sobre as mesmas coisas que se conversam nesses jantares: fatos. E ela detestava discutir fatos. Gostava de trocar idéias. Ou abraçar ideais. Preparou-se como pôde, mas não conseguiu evitar a fatalidade.

-Oi, eu sou a Pri, essa é a Dani e aquela é a Fá. Você é a Bete, né? Amiga do Finha?!
-É, sou eu. Muito prazer.

Saiu mais um sussurro do que uma confirmação. Era uma maneira não tão desagradável de não começar um papo indesejado. Mas as outras não deram trégua.

-E aí? O Rafinha disse que você cursava Letras, é isso? Eu faço Medicina, a Dani e a Fá fazem Direito.
-É, ele disse certo. É isso mesmo.

A tortura continuou.

-É, me diz uma coisa: quem se forma em Letras é o quê? Porque tipo assim: a Pri vai ser médica, eu e a Dani seremos advogadas, ou promotoras ainda não sabemos. Talvez juízas, ainda não sabemos. Mas e você? Vai ser o quê?

Chega! Aí já era demais. Ela sempre suportava com a máxima educação esse tipo de piadinha, mas os sapatos estavam apertados demais e o jeito foi deixar a resposta escapar, pra ver se aliviava o suplício.

-Escuta, ô Fátima. Ah, não é Fátima, é Rafaela? Tudo bem, tanto faz. Olha, Rafaela, você e a Daniela continuarão sendo vocês. A profissão que vocês vão seguir é uma outra história. e ainda tem que passar na prova da OAB, se não nada feito, certo? E a Priscila, é isso mesmo, Priscila? vai ser graduada em Medicina. Eu? Bom, eu vou prum programa de televisão ganhar um milhão de reais em cima de um otário que se formou em Medicina e ficou roubando remédio da farmácia do hospital. E pra começo de conversa, pra vocês, meu nome é Elisabete.

Pronto, tinha saído. Ela ficou esperando que as três começassem um ataque histérico e chamassem os seguranças para expulsá-la dali. De repente, as outras começaram a rir.

-Ah! Bete, você é mesmo uma graça. Piadista de primeira, bem que o Rafinha disse.

Levantaram e deixaram-na lá sozinha, tão rápido como tinham chegado.

-Eu ainda mato o Rafael. Foi tudo o que ela conseguiu pensar.

A única coisa que podia fazer era ir pro barzinho onde os amigos estavam. Saiu correndo direto pra lá.


*Baseado em fatos surreais.

Um comentário:

Belle disse...

ah, a falta de traquejo social... adoro! hauahuahauhauah